terça-feira, 25 de maio de 2010

12 DE SETEMBRO - Álvares de Azevedo

O sol oriental brilha nas nuvens, mais docemente a viração murmura e mais doce no vale a primavera
saudosa e juvenil é toda em rosa...
como os ramos sem folhas
do pessegueiro em flor.
[...]

II
Debalde nos meus sonhos de ventura
tento alentar minha esperança morta
e volto-me ao porvir...
A minha alma só canta a sepultura
e nem última ilusão beija e conforta
meu ardente dormir...

III
Tenho febre...meu cérebro transborda.
Eu morrerei mancebo, inda sonhando
da esperança o fulgor...
Oh! cantemos ainda: a última corda
Treme a lira...morrerei cantando
o meu único amor!

IV
Meu amor foi o sol que madrugava
o canto matinal da cotovia
e a rosa predileta...
Fui um louco, meu Deus, quando tentava
descorado e febril nodoar na orgia
os sonhos de poeta...
[...]
AZEVEDO, Álvares. Lira dos vinte anos

terça-feira, 18 de maio de 2010

MEDO DA ETERNIDADE


Jamais me esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.
Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
- Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.
- Não acaba nnca, e pronto.
Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual eu já começara a me dar conta. Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo.
- Acabou-se o docinho. E agora?
- Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxapuxa cinzento qde borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava era aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
- Já lhe disse, repetiu minha irmã, que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.
Mas alividada. Sem o peso da eternidade sobre mim.


LISPECTOR, Clarice. Medo da eternidade. In. SANTOS, Joaquim F. (org). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 221-222.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

AS PESSOAS SENSÍVEIS

As pessoas sensíveis não são capazes
de matar galinhas
Porém são capazes
de comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
à roupa do seu corpo
aquela roupa
que depois da chuva secou sobre o corpo
proque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
a roupa
que depois do suor não foi lavada
porque não tinham outra

"Ganhará o pão com o suor do teu rosto"
assim nos foi imposto
e não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão"
Ó vendilhões do templo
ó construtores
das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-les Senhor
porque eles sabem o que fazem.


Sofia de Mello Breyner - Livro Sexto, 1962