terça-feira, 14 de julho de 2026

DELVANIR LOPES - Amanhar

 



AMANHAR


Agora que o jardim foi destruído,

só nos galhos e folhas mortas ainda verdes

a vida se despede, mostrando seus veios ressequidos...


mas o aroma perdura um pouco mais,

o vento irmão o carrega mesmo a quem mata a flor.

Generosidade de planta.


Depois da noite receber cada gota de orvalho...

terra revirada e pisada, sementes caídas e latentes,

a vida se anuncia, oferecendo seus braços úmidos.


LOPES, Delvanir. amanhar. In: Hematopiese. Pará de Minas: VrtualBooks, 2011, p. 11.

DELVANIR LOPES - Cidade sob pedras

 


Cidade sobre pedras


 

Itápolis, nome que a terra pronuncia,

feito de pedras antigas que sustentam o tempo

e guardam no silêncio a sua origem.

 

“Aqui sobre esta pedra, áspera, e dura,

Teu nome hei de estampar”.

 

Cidade das pedras,

caminhos construídos sobre a rocha

transformada em chão habitável.

 

Terra fértil

em que “se plantando tudo dá”.

União de raças e forças -

italianos, árabes, japoneses,

portugueses, judeus, espanhóis –

que cultivam os pomares,

os cafezais,

nomeiam os rios e as ruas,

criam e movimentam a história.

 

Entre o calor e trabalho,

recordação do gelato vêneto,

dos laranjais sicilianos,

da fé e costumes lusitanos,

da arte de vender e comprar coisas.

A memória das famílias,

passadas de coração em coração,

de mão em mão.

 

Na pólis construída sobre as rochas

as pedras não pesam, sustentam,

o passado não prende, ensina.

E a cidade segue viva,

entre sabores, histórias e braços abertos.



LOPES, Delvanir (2025)

terça-feira, 7 de julho de 2026

Trecho de "Lucíola" - José Martiniano de Alencar




As grandes sensações de dor ou de prazer pesam tanto sobre o homem, que o esmagam no primeiro momento e paralisam as forças vitais. É depois que passa esse entorpecimento das faculdades, que o espírito, insigne químico, decompõe a miríada de sensações, e vai sugando a gota de fel ou de essência que ainda estila dos favos apenas libados.


ALENCAR, José Martiniano de. Lucíola. São Paulo: Martin Claret, p. 31.