sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

SONETO DO AMOR TOTAL - Vinícius de Moraes (Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes)





Amo-te tanto, meu amor... não cante
o humano coração com mais verdade ...
Amo-te como amigo e como amante
numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo prestante
e amo-te além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
de um amor sem mistério e sem virtude
com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
é que um dia em teu corpo de repente
hei de morrer de amar mais do que pude. 


MORAES, V. O melhor de Vinícius de Moraes. São Paulo: Cia das Letras, 1994, p. 77.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Evangelium Secundum Ioannem

Iesus autem clamavit, et dixit:
Qui credit in me,
non credit in me,
sed in eum, qui misit me.
Et qui videt me, videt eum, qui miset me.
Ego lux mundum veni:
ut omnis, qui credit in me,
in tenebris non maneat.
Et si quis audierit verba mea,
et non custoderit: ego non iudico eum,
non enim veni ut iudicem mundum,
sed ut salvificem mundum .
Qui spernit me,
et non accipit verba mea:
 habet qui iudiccet eum; sermo,
quem locutus sum,
 ille iudicabit eum in novissimo die.
Quia ego ex meipso non sum locutus,
sed qui misit me Pater,
ipse mihi mandatum dedit quid dicam,
et quid loquar.
Caput XIII, 44-49.  Novum Iesu Christi Testamentum, 1911.

sábado, 17 de novembro de 2012

Além dos muros - Delvanir Lopes





Na noite escura ouço o barulho das asas.
Vem o desejo de cantar à beira das águas claras,
ver o reflexo das estrelas
 e, talvez, mergulhar entre elas
para um sonho sem sombras.

As asas da noite me levam tão alto
que os contornos do mundo se dissolvem
e a realidade é cada vez mais abstrata.

Voo além dos muros,
mais e mais longe,
passando pelo mar e molhando as pontas das asas,
passando pelo céu e ganhando as cores da íris,
passando pelo mundo e calando as vozes do tempo.

Quando, envolvido pelo escuro céu, ouço o barulho das asas,
(a realidade se estampa nas nuvens cinzentas,
o silêncio toma conta da alma
e o destino se esquiva dos dedos,
para os êxtases sem acompanhante,
para os passos sem rastro,
para os corpos sem sombra)
já não sou mais aqui.
Sou longe, na paisagem sem cercas,
nem linhas,
nem desejos.

LOPES. Delvanir. Além dos muros. In: Fímbria, 2012. 


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

FRAGMENTO


 
 
 
Fracos e desamparados somos nós.
O medo é nossa bússola.
Na praia deserta
plantamos nossa solidão e nos tornamos náufragos.
Para sempre.


MOURA, Emílio. In: Itinerário Poético.  - poemas reunidos. BH:ufmg, 2002, p. 174.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

(...) - Delvanir Lopes





Se não fosse esse céu tão escuro
e essas borboletas de asas tão pesadas
fazendo círculos tortos sobre minha cabeça,
poderia acreditar ainda em alvorada
e dar passadas largas sem temer os buracos
que não consigo ver.
 
Se não fossem estas nuvens tão baixas
que quase alcanço e torço
esperando pelas lágrimas
ou essas folhas e coisas e lembranças
que o vento carrega
e param em meu corpo por alguns segundos,
poderia sentir o sol que não vejo
e voar além das fronteiras.
 
Neste excesso de sombras
só a brisa das negras asas rociam minha alma,
inventam nela o riso,
revelam a beleza
e libertam a nudez.
 
LOPES, Delvanir. Poema inédito para o livro Fímbria - ou na morte da nossa hora. 2012.




domingo, 17 de junho de 2012

CONSELHO DE UMA LAGARTA



A lagarta e Alice ficaram olhando uma para a outra algum tempo em silêncio. Finalmente a lagarta tirou o narguilé da boca e se dirigiu a ela numa voz lânguida, sonolenta.
"Quem é você?" perguntou a Lagarta.
Não era um começo de conversa muito animador. Alice respondeu, meio encabulada. "Eu...eu mal sei, sir, neste exato momento ... peloo menos sei quem eu era quando me levantei esta manhã, mas acho que já passei por várias mudanças desde então."
"Que quer dizer com isso?" esbravejou a Lagarta. "Explique-se!"
"Receio não poder me explicar", respondeu Alice, "porque eu não sou eu mesma, entende?"
"Não entendo", disse a Lagarta.
"Receio não poder ser mais clara",  Alice respondeu com muita polidez, "pois eu mesma não consigo entender, para começar; e ser de tantos tamanhos diferentes num dia é muito perturbador."
"Não é", disse a Lagarta.
"Bem, talvez eu ainda não tenha descoberto isso", disse alice; "mas quando tiver de virar uma crisálida...vai acontecer um dia, sabe...e mais tarde uma borboleta, diria que vai achar isso um pouco esquisito, não vai?"
"Nem um pouquinho", disse a Lagarta.
[...]

CARROLL, Lewis. Aventuras de Alice no país das maravilhas e Através do espelho e o que Alice encontrou lá. Trad. maria Luiza X. de A. Borges, Rio de Janeiro: Zahar , 2009, p. 55-57.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

RITMO DI NAPOLI - Cecília Benevides de Carvalho Meireles



Traverso questo momento,
trasfigurata d'altro tempo,
tra muri bianchi di statue.

In sogno rispondo a quello
che dicono in altra lingua.
La luna nasce tra i pioppi.

Che ci sia amore o sconforto,
tutto è come la fragile tinta
di questa sera in quest'acque.

So che cantano, so che passano,
che la barche hanno remi verdi,
e quello è il golfo di Napoli.

So che nell'alma ho silenzio,
che di silenzio cingo il mondo
e c'è primavera sui rami.

MEIRELES, Cecília. Poemi Italiani. Trad. Edoardo Bizzarri. São Paulo: Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro, 1968, p. 28.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

MORS


Nesse risonho lar,
a dor caiu neste momento,
como se fosse a chuva, o vento,
o raio, e bate sem cessar...
Bate e estala,
como uma louca,
de boca em boca,
de sala em sala...
somente tu, flor delicada,
como quem veio
fatigada
de um passeio,
tombaste ali, silenciosa,
sobre o sofá,
no abandono,
pálida rosa,
de um longo sono,
de que ninguém te acordará!


PERNETA, Emiliano. Poesia. Rio de Janeiro: Agir, 1960, p. 35-36.

sábado, 12 de maio de 2012

Cecília Meireles, 26/11/1944, às filhas (fragmento de carta) - Cecília Benevides de Carvalho Meireles





[...]


Ah, mas eu ia me esquecendo de contar o resto do jantar. A sobremesa era outra vez goiabada com queijo. E o mocinho me disse. "Aqui todo o dia é a mesma coisa. Só aos domingos é que varia. Este hotel se chama Grande Hotel, mas não presta. O melhor é o Moderno. Este é muito antigo. Pode ser que já tenha sido Grande..." Achei muito engraçado. E disse: "Agora vou comer a sobremesa para tirar o gosto do jantar, beber uma gota de café para tirar o gosto da sobremesa, e beber um pouco dágua para tirar o gosto do café." E ele me perguntou: "E depois, a sra não fuma? " Ele é um mocinho inteligente. Mas não devia falar tanto mal do hotel em que trabalha, porque isso não fica bem.

fragmento de carta de Cecília Meireles às suas filhas. In: MORAES, Marcos A. de. (org.) Três Marias de Cecília, p. 131;

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Quando for o momento da mudança - Delvanir Lopes






Quando for o momento da mudança
espero estar banhado em sangue
e com a carruagem subir.
Ser levado às nuvens
por carpas e peixes de cristal
até as colunas, os umbrais...

Quando for o momento das mudanças
quero ter as pálpebras abertas,
a força no corpo,
o anseio no espírito
e rapidamente me deixar arrastar
pela luz.

Quando for a mudança
o que sobrará de mim serão só gotas
que a terra sugará
e regarão casulos.

Hematopoiese.

LOPES, Delvanir. Hematopoiese. Pará de Minas (MG): VirtualBooks, 2011, p. 09.

domingo, 11 de março de 2012

RILKE - a arte de escrever




[...] "A sua existência, mesmo na hora mais indiferente e vazia, deve tornar-se sinal e testemunho de tal impulso. Aproxime-se então da natureza. Depois procure como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite, de início,os temas demasiados comuns: são os mais difíceis. Nos assuntos em que tradições seguras, às vezes brilhantes, se mostram em grande número, o poeta só pode realizar obra pessoal na plena maturidade da sua força. Fuja dos grandes assuntos e aproveite aqueles que o dia-a-dia lhe oferece. Fale das suas tristezas e dos seus desejos, dos pensamentos que o tocam, da sua fé na beleza. Utilize, para se exprimir, os objetos que o rodeiam, as imagens dos seus sonhos, as lembranças. Se o quotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse a si próprio de não ser muito poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador nada é pobre. não há lugaresmesquinhos e indiferentes. Mesmo num cárcere cujas paredes abafassem todos os ruídos do universo, não lhe ficaria sempre a sua infância, essa preciosa, essa esplêndida riqueza, esse tesouro de recordações?" [...]


RILKE, Rainer M. Poemas e Cartas a um jovem poeta. Rio de Janeiro: Technoprint, 1970,p. 125-126.