quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

FAGULHA - Ana Cristina César




Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.


In  ______. A Teus Pés. São Paulo: Brasiliense,1982



domingo, 27 de dezembro de 2020

VENI CREATOR SPIRITUS

 
Veni, Creator Spiritus,
mentes tuorum visita,
imple superna gratia,
quae tu creasti pectora.
 
Qui diceris Paraclitus,
altissimi donum Dei,
fons vivus, ignis, caritas,
et spiritalis unctio.
 
Tu septiformis munere,
digitus paternae dexterae,
tu rite promissum Patris,
sermone ditans guttura.
 
Accende lumen sensibus;
infunde amorem cordibus,
infírma nostri corporis
virtute firmans perpeti.
 
Hostem repellas longius,
pacemque dones protinus;
ductore sic te praevio
vitemus omne noxium.

Per te sciamus da Patrem,
noscamus atque Filium;
teque utriusque Spiritum
credamus omni tempore.
 
Deo Patri sit gloria,
et Fillio, qui a mortuis
surrexit, ac Paraclito,
in saeculorum saecula. Amen.

V -  Emítte Spiritum tuum, et creabuntur.
R -  Et renovabis faciem terrae.
 
Oremus - Deus qui corda fidelium Sancti Spiritus illustratione docuisti: da nobis in eodem Spiritu recta sapere; et de eius semper consolatione gaudere. Per Dominum nostrum Jesum Christum, Filium tuum, qui tecum vivit et regnat in unitate eiusdem Spiritus Sancti Deus. Per omnia saecula saeculorum. Amen.


Hrabanus Maurus, século IX




Vinde Espírito Criador
Visitai as almas vossas
Enchei da graça do alto
Os corações que criastes

Sois chamado Consolador
O dom de Deus Altíssimo
Fonte viva, fogo, caridade
E unção espiritual

Sois formado de sete dons
O dedo da direita de Deus
Solene promessa do Pai
Que inspira as palavras

Iluminai os sentidos
Infundi o amor nos corações
Fortalecei nossos corpos
Virtude firmai para sempre

Afastai o inimigo
Dai-nos a paz sem demora
E assim guiados por Vós
Evitaremos todo o mal

Fazei-nos conhecer o Pai
E revelai-nos o Filho
Para acreditar sempre em Vós, Espírito
Que de ambos procedeis

Amém

V. Venha o Vosso Espírito, e criai.
R. E renovai a face da Terra.

Oremos: Ó Deus, que instruístes os corações dos fiéis pela luz do Santo Espírito: dai-nos no mesmo Espírito sabedoria com retidão, e júbilo no Seu consolo.
Por Jesus Cristo, Vosso filho,que vive e reina Convosco na Unidade do Espírito Santo, pelos séculos dos séculos.
Amém.

NEGRO - Raul Bopp



Pesa em teu sangue a voz de ignoradas origens.
As florestas guardaram na sombra o segredo da tua história.
A sua primeira inscrição em baixo-relevo
foi uma chicotada no lombo.
Um dia
atiraram-te no bojo de um navio negreiro.
E durante longas noites e noites
vieste escutando o rugido do mar
como um soluço no porão soturno.
O mar era um irmão da tua raça.
Uma madrugada
baixaram as velas do convés.
Havia uma nesga de terra e um porto.
Armazéns com depósitos de escravos
e a queixa dos teus irmãos amarrados em coleiras de ferro.
Principiou aí a sua história.
O resto,
o que ficou para trás,
o Congo, as florestas e o mar
continuam a doer na corda do urucungo.



Urucungo: poemas negros. In: BOPP, Raul. Seleta em prosa e verso. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio/Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1975, p. 13. 

RÁPIDO E RASTEIRO - Chacal

 


Vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida.

Ricardo de Carvalho Duarte (Chacal)

É PRECISO AGIR - Martin Niemöller

 





Zuerst kamen sie für die

Kommunisten, und ich war

kein Kommunist, und da

hab ich nichts gesagt und

nichts getan, und dann

kamen sie für die Gewerkschaftler, und ich war kein

Gewerkschaftler, und sie

kamen für die Sozialdemokraten, und sie kamen für

die Katholiken, und sie kamen für die Juden, und ich

war keiner von denen, und

dann kamen sie für mich,

und da war keiner mehr,

der schreien konnte.


Na Alemanha, vieram primeiro atrás dos comunistas, e eu nada falei porque não era comunista.
Então vieram atrás dos judeus, e eu nada falei
porque não era judeu.
Então vieram atrás dos sindicalistas, e eu nada
falei porque não era sindicalista.
Então vieram atrás dos católicos, e eu nada falei
porque era protestante.
Por fim, vieram atrás de mim e, nessa época, já
não havia sobrado ninguém para falar.


Martin Niemöller

A GRANDE SEDE - João da Cruz e Souza

 



Se tens sêde de Paz e d'Esperança,
Se estás cégo de Dor e de Peccado,
Valha-te o Amor, o grande abandonado,
Sacia a sêde com amor, descansa.

Ah! volta-te a esta zona fresca e mansa

Do Amor e ficarás desafogado,
Has de ver tudo claro, illuminado
Da luz que uma alma que tem fé alcança.

O coração que é puro e que é contricto,

Se sabe ter doçura e ter dolencia
Revive nas estrellas do Infinito.

Revive, sim, fica immortal, na essencia
Dos Anjos paira, não desprende um grito
E fica, como os Anjos, na Existencia.




* grafia original 

PARA QUE A ESCRITA SEJA LEGÍVEL - Cecília Benevides de Carvalho Meireles


Para que a escrita seja legível,
é preciso dispor os instrumentos,
exercitar a mão,
conhecer todos os caracteres.
Mas para começar a dizer
alguma coisa que valha a pena,
é preciso conhecer todos os sentidos
de todos os caracteres,
e ter experimentado em si próprio
todos esses sentidos,
e ter observado no mundo
e no transmundo
todos os resultados dessas experiências.

MEIRELES, Cecília. In: Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1993, p. 1403.


YOU'VE GOT A FRIEND - Você tem um amigo - Carole King



When you're down and troubled and you need some love and care,
And nothing, nothing is going right,
Close your eyes and think of me and soon I will be there
To brighten up even your darkest night.

You just call out my name, and you know wherever I am,
I'll come running to see you again.
Winter, spring, summer, or fall, all you have to do is call
And I'll be there
You've got a friend.

If the sky above you grows dark and full of clouds,
And that old north wind begins to blow,
Keep your head toget-her and call my name out loud.
Soon you'll hear me knockin' at your door.

You just call out my name, and you know wherever I am,
I'll come running to see you again.
Winter, spring, summer, or fall, all you have to do is call
And I'll be there, yes, I will.

Now ain't it good to know that you've got a
Friend when people can be so cold. 
They'll hurt you, yes, and desert you
And, take your soul if you let them.
Oh, but don't you let them.

You just call out my name and you know wherever I am,
I'll come running to see you again.
Winter, spring, summer, or fall, all you have to do is call
And I'll be there, yes, I will.

You've got a friend.
You've got a friend.
Ain't it good to know you've got a friend…

EL VIAJE DEFINITIVO - Juan Jamón Jiménez

    


Y yo me iré. Y se quedarán los pájaros
cantando.
Y se quedará mi huerto con su verde árbol,
y con su pozo blanco.

Todas las tardes el cielo será azul y plácido,
y tocarán, como esta tarde están tocando,
las campanas del campanario.

Se morirán aquellos que me amaron
y el pueblo se hará nuevo cada año;
y lejos del bullicio distinto, sordo, raro
del domingo cerrado,
del coche de las cinco, de las siestas del baño,
en el rincón secreto de mi huerto florido y encalado,
mi espíritu de hoy errará, nostáljico...

Y yo me iré, y seré otro, sin hogar, sin árbol
verde, sin pozo blanco,
sin cielo azul y plácido...
Y se quedarán los pájaros cantando.



A Viagem Definitiva - tradução de Manuel Bandeira

Ir-me-ei embora. E ficarão os pássaros
Cantando...
E ficará o meu jardim com sua árvore verde
E o seu poço branco.

Todas as tardes o céu será azul e plácido,
E tocarão, como esta tarde estão tocando,
Os sinos do campanário.

Morrerão os que me amaram
E a aldeia se renovará todos os anos.
E longe do bulício distinto, surdo, raro
Do domingo acabado,
Da diligência das cinco, das sestas do banho,
No recanto secreto de meu jardim florido e caiado
Meu espírito de hoje errará nostálgico....

E ir-me-ei embora, e serei outro, sem lar, sem árvore
Verde, sem poço branco,
Sem céu azul e plácido...
E os pássaros ficarão cantando.


METADE - Oswaldo Viveiros Montenegro

 Geraldine Dukes  •  Dorset/UK 

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.

Que as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo

Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão

Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço

Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é plateia
a outra metade é canção.

Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também



Fonte: LyricFind
Compositores: Oswaldo Montenegro / Oswaldo Viveiros Montenegro
Letra de Metade © Warner Chappell Music, Inc

AMANHÃ - Guilherme Arantes


 AMANHÃ


Amanhã será um lindo dia
Da mais louca alegria
Que se possa imaginar
Amanhã, redobrada a força
Pra cima que não cessa
Há de vingar
Amanhã, mais nenhum mistério
Acima do ilusório
O astro rei vai brilhar
Amanhã a luminosidade
Alheia a qualquer vontade
Há de imperar, há de imperar
Amanhã está toda a esperança
Por menor que pareça
O que existe é pra vicejar
Amanhã, apesar de hoje
Ser a estrada que surge
Pra se trilhar
Amanhã, mesmo que uns não queiram
Será de outros que esperam
Ver o dia raiar
Amanhã ódios aplacados
Temores abrandados
Será pleno, será pleno


Fonte: Musixmatch
Compositores: Guilherme Arantes
Letra de Amanhã © Warner/chappell Edicoes Musicais Ltda

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Deborah Brennand - Meu bem

 


https://imagens2.ne10.uol.com.br/blogsne10/social1/uploads/2015/05/deborahbrennand.jpg


Meu bem

A noite não é uma vela
negra e sem lume,
não é um cacho de uvas
sombrio no parreiral.

Não é aquela borboleta
com asas escuras na mata,
menos ainda é um túmulo
com estrelas douradas.

A noite é, meu bem,

só a origem da claridade.


- Deborah Brennand, em "Poesia reunida". 2007.

sábado, 19 de setembro de 2020

Não posso adiar o amor - António Ramos Rosa

 

António Ramos Rosa

1924-2013 

NÃO POSSO ADIAR O AMOR


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.
In: Viagem através duma nebulosa, 1960

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

MARCHA - Cecília Benevides de Carvalho Meireles




 As ordens da madrugada

romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebraram as formas do sono
com a idéia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns vivos pela tona,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
-- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga,
é tudo que tenho,
entre o sol e o vento:
meu vestido, minha musica,
meu sonho, meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudades;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos tristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento...
Não há lagrima nem grito:
apenas consentimento.

In: Viagem
Ora Poética, Rio de Janeiro: Nova Aguilar,  1987, p. 125-126.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Fanatismo - Florbela Espanca

 Ver a imagem de origem

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.

Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No mist'rioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!...

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

SPANCA, Florbela. In: Livro de Sóror Saudade

terça-feira, 18 de agosto de 2020

EPIGRAMA nº 2 - Cecília Benevides de Carvalho Meireles


És precária e veloz, Felicidade.

Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.

Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,

e, para te medir, se inventaram as horas.


Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.

Fizeste para sempre a vida ficar triste:

porque um dia se vê que as horas todas passam,

e um tempo, despovoado e profundo, persiste.


______. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1987, p. 85. (do livro Viagem)

quarta-feira, 29 de julho de 2020

O espelho - João Guimarães Rosa (fragmento)



— Foi num lavatório de edifício público, por acaso. Eu era moço, comigo contente, vaidoso. Descuidado, avistei… Explico-lhe: dois espelhos — um de parede, o outro de porta lateral, aberta em ângulo propício — faziam jogo. E o que enxerguei, por instante, foi uma figura, perfil humano, desagradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo. Deu-me náusea, aquele homem, causava-me ódio e susto, eriçamento, espavor. E era — logo descobri… era eu, mesmo! O senhor acha que eu algum dia ia esquecer essa revelação?

Desde aí, comecei a procurar-me — ao eu por detrás de mim — à tona dos espelhos, em sua lisa, funda lâmina, em seu lume frio. Isso, que se saiba, antes ninguém tentara. Quem se olha em espelho, o faz partindo de preconceito afetivo, de um mais ou menos falaz pressuposto: ninguém se acha na verdade feio: quando muito, em certos momentos, desgostamo-nos por provisoriamente discrepantes de um ideal estético já aceito. Sou claro? O que se busca, então, é verificar, acertar, trabalhar um modelo subjetivo, preexistente; enfim, ampliar o ilusório, mediante sucessivas novas capas de ilusão. Eu, porém, era um perquiridor imparcial, neutro absolutamente. O caçador de meu próprio aspecto formal, movido por curiosidade, quando não impessoal, desinteressada; para não dizer o urgir científico. Levei meses.

ROSA, João G. O espelho. In> ______.Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 122-123

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Simbolismo do "centro" - Mircea Eliade



[...]

O que distingue o historiador das religiões de um simples historiador é que ele lida com fatos que, embora históricos, revelam um comportamento que vai muito além dos comportamentos históricos do ser humano. Se é verdade que o homem sempre encontra numa "situação", nem por isso essa situação é sempre histórica, ou seja, unicamente condicionada pelo momento histórico contemporâneo. O homem integral conhece outras situações além da sua condição histórica. Conhece, por exemplo, o estado de sonho, ou de devaneio, ou o da melancolia ou do desprendimento, ou da contemplação estética, ou da evasão etc. - e todos esses estados não são "históricos", embora sejam, para a existência humana, tão autênticos e importantes quanto a sua situação histórica. Aliás, o homem conhece vários ritmos temporais, e não somente o tempo histórico, ou seja, seu próprio tempo, a contemporaneidade histórica. Basta ele escutar uma bela música, ou apaixonar-se, ou rezar, para sair do presente histórico e reintegrar o presente eterno do amor e da religião. Basta ele abrir um romance ou assistir a um espetáculo dramático para encontrar um outro ritmo temporal - o que poderíamos chamar tempo adquirido - que, em todo o caso, não é o tempo histórico.

[...]


ELIADE, Mircea. Imagens e Símbolos. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 26.

domingo, 12 de julho de 2020

Die Spitze - Rainer Maria Rilke




Menschlichkeit: Namen schwankender Besitze, 
 noch unbestätigter Bestand von Glück:
ist das unmenschlich, daß zu dieser Spitze,
zu diesem kleinen dichten Spitzenstück 
zwei Augen wurden? - Willst du sie zurück?

Du Langvergangene und schließlich Blinde, 
ist deine Seligkeit in diesem Ding,
zu welcher hin, wie zwischen Stamm und Rinde, 
dein großes Fühlen, kleinverwandelt, ging?

Durch einen Riß im Schicksal, eine Lücke
entzogst du deine Seele deiner Zeit;
und sie ist so in diesem lichten Stücke,
daß es mich lächeln macht vor Nützlichkeit..

 (RILKE, Rainer Maria. New poems. Translation by Len Krisak; With na Introdution by George c. Schoolfield. New York: Boydell & Brewer, 2015, p. 78-79) 


Humanidade: termo para algo sem dono
mas sempre cintilante em sua felicidade.
É desumano que um par de olhos
tenham se reduzido a esta pequena peça de renda tecida -
dois olhos que você gostaria de ter de volta?

Rendeira, você há muito tempo se foi (e cega):
e infundiu nessa renda a sua devoção;
como uma árvore, pressionada entre o tronco e a casca, encontra
o caminho, ainda com sua emoção inalterada e bem?

Através de uma brecha, um rasgo no destino,
você desenhou sua alma diretamente na história;
e agora está tão presente nessa renda,
que faz alguém feliz com a sua utilidade.

(tradução minha)

quarta-feira, 1 de julho de 2020

OS INVASORES - Mário Quintana



Há muito que os marcianos invadiram o mundo:
são os poetas
e
como não sabem nada de nada
limitam-se a ter os olhos muito abertos
e a disponibilidade de um marinheiro em terra...
Eles não sabem nada nada
- e só por isso é que descobrem tudo.

QUINTANA, Mário, Os invasores. In: A vaca e o hipogrifo. São Paulo: Círculo do Livro,  1977, p. 100.

CÂNTICO XXVI - Cecília Benevides de Carvalho Meireles


Estrada, Floresta, Temporada, Outono, Queda, Paisagem

O que tu viste amargo,

Doloroso,
Difícil,
O que tu viste breve,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...



In: MEIRELES, Cecília. Cânticos. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1982, p. 202.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

GITANJALI , 31 - Rabindranath Tagore


Rabindranath Tagore - Wikiwand



"Prisioneiro, contai-me quem foi que te prendeu?”
"Foi meu mestre" respondeu o prisioneiro, "Pensei que poderia assombrar o mundo com meu poder e riqueza, e acumulei em meu cofre o dinheiro que pertencia ao meu rei. Vencido pelo sono, deitei-me no leito que estava preparado para meu senhor e, quando acordei, encontrei-me preso em meu próprio cofre".
"Prisioneiro, contai-me quem foi que forjou essa inquebrantável corrente?"
"Fui eu mesmo", disse o prisioneiro. "Fui eu que forjei cuidadosamente essa corrente. Pensei que poderia prender o mundo com meu invencível poder, e que isso poderia me deixar em imperturbável liberdade. Noite e dia trabalhei nessa corrente com fogos terríveis e duras e cruéis marteladas. Quando terminei o trabalho e os elos estavam completos e inquebráveis, descobri que a corrente acorrentava a mim mesmo".

Rabindranath Tagore (Gurudev) - 1861/1941

domingo, 17 de maio de 2020

ORAÇÃO DA NOITE - Emiliano Perneta



A Nestor Vítor
Já de sombra se encheu o vale, que murmura,
Já se envolveu na treva a montanha, e o mar,
Ao longe, não é mais do que uma nódoa escura...
São horas de dormir; Maria: vem rezar.

Ajoelha-te aqui, em face das estrelas,
E em primeiro lugar, minha filha, bendiz’
A luz, que te criou formosa entre as mais belas,
E que te fez alegre, e portanto feliz.

Em seguida, bendize a terra e aqueles pobres
E mansos animais, e toda a criação:
A ovelha que te deu a lã, de que te cobres,
O boi que te ajudou, hoje, a ganhar o pão.

Abençoa também as árvores, o ramo
Carregado de fruto, as aleias em flor,
Onde correste mais ligeira do que um gamo,
A fronte a rorejar em gotas de suor.

Reza por todos e por tudo, porém reza,
Principalmente, pelos bons, que são os teus,
Na verde catedral chamada Natureza,
Única onde se pode inda falar com Deus.

Reza por todos os lutadores, Maria,
Que andam de arado em punho e de enxada na mão,
Cavando, sabe Deus, o pão de cada dia
Com que amargura, mas com que resignação!

Vê que silêncio tem a noite, e quão secreta
E misteriosamente a lua apareceu,
Descabelada, assim como uma Julieta,
Doida, a correr, atrás d’um pálido Romeu...

Vai, bendize essa paz, abençoa essas águas,
Que murmuram, à noite, éclogas ideais,
Como uma ninfa que soluçasse de mágoas,
Entre um vale de murta e um bosque de rosais...

Finalmente, abençoa a carícia do sono
Que eu já vejo descer sobre os teus olhos nus,
Inda mais leve do que uma folha d’outono,
Mais leve do que o som, mais leve do que a luz.

Suga como um vampiro esse dourado vinho,
Que nos faz esquecer tudo de uma só vez,
E é o caminho mais curto, e o melhor caminho,
E o manto que nos cobre a dor e a nudez!

Abril – 1912


PERNETA, Emiliano. Oração da Noite. In: Setembro. 

SIGNIFICADOS - Moana Mairink Dutra de Souza



     

Em uma mesa retangular, com conjunto de oito cadeiras, foi decidido uma viagem para praia. Imaginei eu que seria maravilhoso como sempre. Nós costumávamos ir à praia, a única diferença foi o combinado que ocorreu naquela reunião em família, para que minha mãe não fumasse, o que achei, na época, que era um pedido muito severo, já que mamãe gostava tanto de fumar.
Ela, por sua vez, disse que preferia morrer a parar de fumar, eu a entendi, não na frase intensa por um todo, mas meu bico ou chupeta sempre estava comigo; eu também gostava muito e não largava por nada. Logo depois desse pronunciamento ríspido de minha mãe, meu pai vomitou palavras sobre a mesa que chocaram todos, menos a mim.
– A mãe de vocês vai falecer!!!!! - exclamou meu pai em alto e bom tom.
Observei tudo aquilo e não estava entendendo absolutamente nada. Minha preocupação, para uma criança de seis anos de idade, era apenas assistir meu desenho favorito na TV. Então, dito aquilo e com o silêncio que isso gerou em seguida, eu então percebi claramente que já tinha acabado a reunião em família e disse:
- Tá bom, vou para a sala assistir desenho, tá?!
Permitiram que eu saísse da mesa, mas ninguém me explicou o significado de falecer. Estava tudo bem certo, né? Era apenas mais uma das tantas palavras difíceis que adultos falam.
A viagem à praia estava diferente, minha mãe passou mal por todo o caminho. Ela amava aquela estrada, nunca passou mal. O que estava acontecendo?
Finalmente chegamos e fomos para casa da minha avó, mãe de minha mãe. A casa não estava com a felicidade que a maresia carregava. Todos da família de minha mãe estavam lá; nos abraçaram muito, mas tudo bem, né? Eles sempre foram muito carinhosos. Os dias passaram e percebi que minha mãe encontrou um lugarzinho de aconchego debaixo do pé de carambola que tinha no quintal. Todos os dias ela levava seu colchão, deitava e ficava me observando. Eu, que não largava ela, ficava por lá brincando com umas borboletinhas chamadas soldadinhos. Eram pequeninos, com asas pretas e bolinhas brancas; eram belíssimos.
Estava tudo bem, certo, né? Errado, completamente errado. Os dias se passaram e apareceram macas, galões de oxigênio. Minha mãe, que antes tinha um cabelo na cintura, encaracolado, e uma boa forma e felicidade constante, agora estava careca, sempre chorando, tossia muito. Tossia tanto que chegava a vomitar. Lembro bem dela com a mão na testa, completamente desesperada. Algo não estava certo.
Acordei na manhã seguinte com todos desesperados, correndo de um lado para o outro. Eu fui até a varanda da frente olhar o que estava acontecendo: tinha tubulação e fios que levavam até a rua e minha mãe estava lá com uma máscara de oxigênio, do lado de um carro da cor preta. Então decidi ir até ela.
Para não tropeçar nos fios e desligar tudo, eu fui pulando por eles, um pulinho por vez. Quase chegando na porta, passaram crianças correndo das quais não me recordo porque eu não tinha primos da minha idade. Levaram com eles todos os fios e o oxigênio de minha mãe. Vi com os olhos de uma garota aos seis anos, a pessoa que mais amei pedir por ar e não encontrar. Eu corri eu corri muito pra chegar até ela, eu tentei abraçar, tentaram me tirar. Ela olhou pra mim desesperada, querendo um abraço ou me afastar para não ver o que aconteceria a seguir. Ela desmaiou.
Colocaram minha mãe no carro preto que estava ao lado. Pedi para ir junto, mas nenhum adulto deixou. Eu só queria minha mãe, eu queria saber se ela estava bem, queria saber se ela tinha acordado.
Ela não acordaria mais.

Aquela palavra que eu desconhecia, acabei de entender da forma mais dolorosa que um filho pode entender. Ela não desmaiou, ela faleceu!


Moana Mairink Dutra de Souza