quinta-feira, 13 de outubro de 2016

O CONTO - Cecília Benevides de Carvalho Meireles







“No fim do mundo, nas terras brancas, frias, ignotas,
‘Vive um palácio muito bonito, com portas de ouro,
‘E um Rei que nunca na sua vida sofreu derrotas
‘E que tem gemas iguais à lua no seu tesouro…

Para se ir lá, sobem-se muitas, muitas montanhas,
‘Passam-se mares todos revoltos sob procelas,
‘Descem-se abismos em cujas negras, mudas entranhas
‘Dragões de fogo fazem perguntas, mostrando as goelas…

Anda-se muito, sofre-se muito… Mas é preciso,
‘Para chegar-se ao palácio lindo no fim do mundo,
‘Que a alma, ao contrário, seja um caminho liso, bem liso,
‘Como o céu claro, puro, bondoso, grande, profundo…

Quando se alcançam as terras brancas, frias, ignotas,
Sozinhas se abrem as portas de ouro, caladamente…
E o Rei que nunca na sua vida sofreu derrotas
‘Estende em taça cor das estrelas muito remotas
‘A água que apaga todas as dores da alma da gente…”

Cecília Meireles

In Acervo do memorial do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

É ESTRANHO - Henriqueta Lisboa




É estranho que, após o pranto
vertido em rios sobre os mares
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilas, ó náufrago.

É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.

É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.




 Henriqueta Lisboa In Flor da Morte

domingo, 25 de setembro de 2016

Mar - Sophia de Mello Breyner Andresen


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Mar
I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua
.
II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.


Sophia de Mello Breyner Andresen In Poesia, 1944

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

DA NOITE - Hilda de Almeida Prado Hilst

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DA NOITE

III

Vem dos vales a voz. Do poço.
Dos penhascos. Vem funda e fria
Amolecida e terna, anêmonas que vi:
Corfu. No mar Egeu. Em Creta.
Vem revestida às vezes de aspereza
Vem com brilhos de dor e madrepérola
Mas ressoa cruel e abjeta
Se me proponho ouvir. Vem do Nada.
Dos vínculos desfeitos. Vem do Nada.
Dos vínculos desfeitos. Vem dos ressentimentos.
E sibilante e lisa
Se faz paixão, serpente, e nos habita.


IV

Dirás que sonho o dementado sonho de um poeta
Se digo que me vi em outras vidas
Entre claustros, pássaros, de marfim uns barcos?
Dirás que sonho uma rainha persa
Se digo que me vi dolente e inaudita
Entre amoras negras, nêsperas, sempre-vivas?
Mas não. Alguém gritava: acorda, acorda Vida.
E se te digo que estavas a meu lado
E eloqüente e amante e de palavras ávido
Dirás que menti? Mas não. Alguém gritava:
Palavras... apenas sons e areia. Acorda.
Acorda Vida.



hilda hilst

In. http://www.hildahilst.com.br.cpweb0022.servidorwebfacil.com/obras.php?categoria=4&id=7

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

MEU JARDIM - Vander Lee (Vanderlí Catarina)



Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores 
Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores 
Refazendo minhas forças, minhas fontes, meus favores 
Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores
Tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho 
Tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho

Tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho 
Escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho 
Estou podando meu jardim
Estou cuidando bem de mim

vander lee

Cantiga de amigo - galego-portuguesa - Martim Codax




Ai ondas que eu vim veer,
se me saberedes dizer
       por que tarda meu amigo sem mim?
  
Ai ondas que eu vim mirar,

se me saberedes contar
       por que tarda meu amigo sem mim?


sábado, 23 de julho de 2016

Aninha e suas pedras - Cora Coralina (Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)


Não te deixes destruir…

Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.


Melhores Poemas. São Paulo: Global, 2008. 4a reimpressão, 2011. p. 243.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

trecho de NAVIO NEGREIRO - Castro Alves



(...)
Auriverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra, 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu, que da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança, 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!... 

Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu na vaga, 
Como um íris no pélago profundo!... 
... Mas é infâmia demais... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo... 
Andrada! Arranca este pendão dos ares! 
Colombo! Fecha a porta de teus mares! 

(Castro Alves, Navio negreiro.)

domingo, 15 de maio de 2016

PAZ - Mário Quintana



Essas cruzes toscas que a gente avista às vezes da janela do trem, na volta de uma estrada, são belas como árvores... Nada têm dessas admoestantes cruzes de cemitério, cheias de um religioso rancor.
As singelas cruzes da estrada não dizem coisa alguma: Parece apenas viandantes em sentido contrário.
E vão passando por nós – tão naturalmente – como nós passamos por elas.



Quintana, Mário. Paz. In A vaca e o hipogrifo. São Paulo: Círculo do livro, 1977, p. 47

sábado, 14 de maio de 2016

(18) - Delvanir Lopes


Sim ao eco que grita
e à sombra que persegue;
sim ao vento que dobra;
sim ao sol que escurece;

sim ao que não concordamos
ou ao que não se entende;
sim ao que não procuramos;
sim ao que não se aprende;

sim de todas as maneiras;
sim à vida e à morte;
sim ao que é alegria,
ao que não é boa sorte.

Porque esse é o fado
que não nos deixa escolha:
na árvore da existência

ser apenas uma folha.

Lopes, Delvanir. (18). In Decanto. São Paulo: PerSe, 2016, p. 43.

domingo, 13 de março de 2016

BRAZIL - Anchieta


O Brasil que, sem justiça,
andava mui cego e torto,
vós o metereis no porto
se lançar de si a cobiça
que de vivo o torna morto.

Quae sine iustitia prauo Brasilia cursu
ibat et obliquum, caeca, tenebat iter,
nunc directa, tuae iusto moderamine uirgae,
seruabit, tuis rectis, iusque piumque uisu.


In: ANCHIETA. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954


sábado, 12 de março de 2016

O RIO - Vinícius de Moraes ( Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes)


Rio de Janeiro , 1954

Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um fio cristalino
Distante milênios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.

Um rio nasceu.

MORAES, Vinícius de. O rio. In Antologia Poética, São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.238.