sexta-feira, 31 de março de 2017

DO SUPÉRFLUO - Henriqueta Lisboa

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Também as cousas participam
de nossa vida. Um livro. Uma rosa.
Um trecho musical que nos devolve
a horas inaugurais. O crepúsculo
acaso visto num país
que não sendo da terra
evoca apenas a lembrança
de outra lembrança mais longínqua.
O esboço tão-somente de um gesto
de ferina intenção. A graça
de um retalho de lua
a pervagar num reposteiro
A mesa sobre a qual me debruço
cada dia mais temerosa
de meus próprios dizeres.
Tais cousas de íntimo domínio
talvez sejam supérfluas.
No entanto
que tenho a ver contigo
se não leste o livro que li
não viste a rosa que plantei
nem contemplaste o pôr-do-sol
à hora em que o amor se foi?
Que tens a ver comigo
se dentro em ti não prevalecem
as cousas — todavia supérfluas —
do meu intransferível patrimônio?


HENRIQUETA LISBOA

Pousada do Ser (1982)

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Lições de um gato siamês - Ferreira Gullar (José Ribamar Ferreira)

durma bem Kikão! 

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
       finita
       da minha precariedade O tempo fora
 de mim
            é relativo
 mas não o tempo vivo:
 esse é eterno
 porque afetivo
 — dura eternamente
   enquanto vivo
 E como não vivo
 além do que vivo
 não é
 tempo relativo:
 dura em si mesmo
 eterno (e transitivo)

                                        Ferreira Gullar

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Cântico da esperança - Rabindranath Tagore



Não peça eu nunca 
para me ver livre de perigos, 
mas coragem para afrontá-los. 

Não queira eu 
que se apaguem as minhas dores, 
mas que saiba dominá-las 
no meu coração. 

Não procure eu amigos 
no campo da batalha da vida, 
mas ter forças dentro de mim. 

Não deseje eu ansiosamente 
ser salvo, 
mas ter esperança 
para conquistar pacientemente 
a minha liberdade. 

Não seja eu tão cobarde, Senhor, 
que deseje a tua misericórdia 
no meu triunfo, 
mas apertar a tua mão 
no meu fracasso! 

Rabindranath Tagore




 in "O Coração da Primavera" 
Tradução de Manuel Simões



Let me not pray to be sheltered from dangers,
but to be fearless in facing them.
Let me not beg for the stilling of my pain,
but for the heart to conquer it.
Let me not look for allies in life’s battlefield,
but to my own strength.
Let me not crave in anxious fear to be saved,
but hope for the patience to win my freedom.
Grant that I may not be a coward,
feeling Your mercy in my success alone;
But let me find the grasp of Your hand in my failure.







O CONTO - Cecília Benevides de Carvalho Meireles







“No fim do mundo, nas terras brancas, frias, ignotas,
‘Vive um palácio muito bonito, com portas de ouro,
‘E um Rei que nunca na sua vida sofreu derrotas
‘E que tem gemas iguais à lua no seu tesouro…

Para se ir lá, sobem-se muitas, muitas montanhas,
‘Passam-se mares todos revoltos sob procelas,
‘Descem-se abismos em cujas negras, mudas entranhas
‘Dragões de fogo fazem perguntas, mostrando as goelas…

Anda-se muito, sofre-se muito… Mas é preciso,
‘Para chegar-se ao palácio lindo no fim do mundo,
‘Que a alma, ao contrário, seja um caminho liso, bem liso,
‘Como o céu claro, puro, bondoso, grande, profundo…

Quando se alcançam as terras brancas, frias, ignotas,
Sozinhas se abrem as portas de ouro, caladamente…
E o Rei que nunca na sua vida sofreu derrotas
‘Estende em taça cor das estrelas muito remotas
‘A água que apaga todas as dores da alma da gente…”

Cecília Meireles

In Acervo do memorial do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

É ESTRANHO - Henriqueta Lisboa




É estranho que, após o pranto
vertido em rios sobre os mares
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilas, ó náufrago.

É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.

É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.




 Henriqueta Lisboa In Flor da Morte

domingo, 25 de setembro de 2016

Mar - Sophia de Mello Breyner Andresen


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Mar
I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua
.
II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.


Sophia de Mello Breyner Andresen In Poesia, 1944

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

DA NOITE - Hilda de Almeida Prado Hilst

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DA NOITE

III

Vem dos vales a voz. Do poço.
Dos penhascos. Vem funda e fria
Amolecida e terna, anêmonas que vi:
Corfu. No mar Egeu. Em Creta.
Vem revestida às vezes de aspereza
Vem com brilhos de dor e madrepérola
Mas ressoa cruel e abjeta
Se me proponho ouvir. Vem do Nada.
Dos vínculos desfeitos. Vem do Nada.
Dos vínculos desfeitos. Vem dos ressentimentos.
E sibilante e lisa
Se faz paixão, serpente, e nos habita.


IV

Dirás que sonho o dementado sonho de um poeta
Se digo que me vi em outras vidas
Entre claustros, pássaros, de marfim uns barcos?
Dirás que sonho uma rainha persa
Se digo que me vi dolente e inaudita
Entre amoras negras, nêsperas, sempre-vivas?
Mas não. Alguém gritava: acorda, acorda Vida.
E se te digo que estavas a meu lado
E eloqüente e amante e de palavras ávido
Dirás que menti? Mas não. Alguém gritava:
Palavras... apenas sons e areia. Acorda.
Acorda Vida.



hilda hilst

In. http://www.hildahilst.com.br.cpweb0022.servidorwebfacil.com/obras.php?categoria=4&id=7

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

MEU JARDIM - Vander Lee (Vanderlí Catarina)



Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores 
Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores 
Refazendo minhas forças, minhas fontes, meus favores 
Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores
Tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho 
Tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho

Tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho 
Escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho 
Estou podando meu jardim
Estou cuidando bem de mim

vander lee

Cantiga de amigo - galego-portuguesa - Martim Codax




Ai ondas que eu vim veer,
se me saberedes dizer
       por que tarda meu amigo sem mim?
  
Ai ondas que eu vim mirar,

se me saberedes contar
       por que tarda meu amigo sem mim?


sábado, 23 de julho de 2016

Aninha e suas pedras - Cora Coralina (Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)


Não te deixes destruir…

Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.


Melhores Poemas. São Paulo: Global, 2008. 4a reimpressão, 2011. p. 243.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

trecho de NAVIO NEGREIRO - Castro Alves



(...)
Auriverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra, 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu, que da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança, 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!... 

Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu na vaga, 
Como um íris no pélago profundo!... 
... Mas é infâmia demais... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo... 
Andrada! Arranca este pendão dos ares! 
Colombo! Fecha a porta de teus mares! 

(Castro Alves, Navio negreiro.)

domingo, 15 de maio de 2016

PAZ - Mário Quintana



Essas cruzes toscas que a gente avista às vezes da janela do trem, na volta de uma estrada, são belas como árvores... Nada têm dessas admoestantes cruzes de cemitério, cheias de um religioso rancor.
As singelas cruzes da estrada não dizem coisa alguma: Parece apenas viandantes em sentido contrário.
E vão passando por nós – tão naturalmente – como nós passamos por elas.



Quintana, Mário. Paz. In A vaca e o hipogrifo. São Paulo: Círculo do livro, 1977, p. 47