- Mas eu enfrentarei o Sol divino,
- o Olhar sagrado em que a Pantera arde.
- Saberei porque a teia do Destino
- não houve quem cortasse ou desatasse.
- Não serei orgulhoso nem covarde,
- que o sangue se rebela ao toque e ao Sino.
- Verei feita em topázio a luz da Tarde,
- pedra do Sono e cetro do Assassino.
- Ela virá, Mulher, afiando as asas,
- com os dentes de cristal, feitos de brasas,
- e há de sagrar-me a vista o Gavião.
- Mas sei, também, que só assim verei
- a coroa da Chama e Deus, meu Rei,
- assentado em seu trono do Sertão.
domingo, 1 de fevereiro de 2026
ARIANO SUASSUNA - A morte - o sol do terrível
PEDRO ABRUNHOSA - Balada de Gisberta Sauce Junior
Perdi-me do nome
Hoje podes chamar-me de tua
Dancei em palácios
Hoje, danço na rua
Vesti-me de sonhos
Hoje, visto as bermas da estrada
De que serve voltar
Quando se volta pro nada?
Eu não sei se um anjo me chama
Eu não sei dos mil homens na cama, e o céu não pode esperar
Eu não sei se a noite me leva
Não ouço o meu grito na treva
O fim quer me buscar
Sambei na avenida
No escuro, fui porta-estandarte
Apagaram-se as luzes
É o futuro que parte
Escrevi um desejo
Corações que já esqueci
Com sedas matei e com ferros morri
Eu não sei se um anjo me chama
Eu não sei de mil homens na cama, e o céu não pode esperar
Eu não sei se a noite me leva
Eu não ouço o meu grito na treva, e o fim quer me buscar
Trouxe pouco
Levo menos
A distância até o fundo é tão pequena
No fundo, é tão pequena
A queda
E o amor
É tão longe
O amor é tão longe
O amor é tão longe
O amor é tão longe
Composição: Pedro Abrunhosa
domingo, 25 de janeiro de 2026
ARTHUR IGNATIUS CONAN DOYLE - Sherlock Homes
- Meu querido amigo - disse Sherlock Homes quando estávamos sentados diante da lareira em seus aposentos na Baker Street - , a vida é mais estranha do que qualquer fantasia imaginada pelo homem. Jamais pensaríamos em coisas que são lugares-comuns da existência. Se pudéssemos voar por aquela janela de mãos dadas, flutuar sobre esta grande cidade, remover os telhados e espiar as coisas estranhas que acontecem, as coincidências, os planos, os objetivos divergentes, as maravilhas linhas de acontecimentos agindo pelas gerações e levando aos resultados mais absurdos, isso tornaria toda a ficção, com suas conclusões óbvias, corriqueira e sem importância. [...] Pode acreditar, não há nada mais anormal que o corriqueiro.
Doyle, Arthur Conan. As aventuras de Sherlock Holmes. Tradução de Thiago Sagardoy. São Paulo: Hunter Books, 2016, p. 109-110. (vol. 1)
sábado, 17 de janeiro de 2026
CECÍLIA MEIRELES - Poema 32 de Metal Rosicler (Homenagem à Fernandinha Meireles)
Parecia que ia morrendo
sufocada.
Mas logo de seu peito vinha
uma trêmula cascata,
que aumentava, que aumentava
com borboletas de espuma
e fogo e prata.
Parecia que ia morrendo
de loucura.
Mas logo rápida movia
não sei que vaga porta escura
e, mais tênue que o sol e a lua,
passava entre fitas e rosas
sua figura.
Parecia que ia morrendo
em segredo.
Mas uma rumorosa vida
rugia mais que oceano ou vento
nas suas mãos em movimento.
Agarrava o tempo e o destino
com um ágil dedo.
Parecia que ia morrendo
e revivia.
E girava saias imensas,
maiores do que a noite e o dia.
Rouca, delirante, aguerrida,
pisando a morte e os maus agouros,
“olé!” – dizia.
MEIRELES, Cecília. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1987, p. 697.
Homenagem à Fernandinha Meireles (1956-2025)
sexta-feira, 21 de novembro de 2025
MACHADO DE ASSIS - D. Casmurro (Capítulo CXXXIX) - A Fotografia
sábado, 8 de março de 2025
Evangelium secundum Ioannem, 6
Evangelium secundum Ioannem, 6
1.post hæc abiit Jesus trans mare Galilææ quod est Tiberiadis
2.et sequebatur eum multitudo magna quia videbant signa quæ faciebat super his qui infirmabantur
3.subiit ergo in montem Jesus et ibi sedebat cum discipulis suis
4.erat autem proximum pascha dies festus Judæorum
5.cum sublevasset ergo oculos Jesus et vidisset quia multitudo maxima venit ad eum dicit ad Philippum unde ememus panes ut manducent hii
6.hoc autem dicebat temptans eum ipse enim sciebat quid esset facturus
7.respondit ei Philippus ducentorum denariorum panes non sufficiunt eis ut unusquisque modicum quid accipiat
8.dicit ei unus ex discipulis ejus Andreas frater Simonis Petri
9.est puer unus hic qui habet quinque panes hordiacios et duos pisces sed hæc quid sunt inter tantos
10.dixit ergo Jesus facite homines discumbere erat autem fænum multum in loco discubuerunt ergo viri numero quasi quinque milia
11.accepit ergo panes Jesus et cum gratias egisset distribuit discumbentibus similiter et ex piscibus quantum volebant
12.ut autem impleti sunt dixit discipulis suis colligite quæ superaverunt fragmenta ne pereant
13.collegerunt ergo et impleverunt duodecim cofinos fragmentorum ex quinque panibus hordiaciis quæ superfuerunt his qui manducaverunt
14.illi ergo homines cum vidissent quod fecerat signum dicebant quia hic est vere propheta qui venturus est in mundum
15.Jesus ergo cum cognovisset quia venturi essent ut raperent eum et facerent eum regem fugit iterum in montem ipse solus.
Disponível em: https://www.bibliacatolica.com.br/vulgata-latina-vs-biblia-ave-maria/evangelium-secundum-ioannem/6/. Acesso em 8 mar. 2025.
quarta-feira, 5 de março de 2025
Tomás antônio GONZAGA - LIRA IV
a um pouso chegava,
aonde acolhida
a Morte se achava.
Risonhos e alegres,
os braços se deram,
e as armas unidas
num sítio puseram.
De empresas tamanhas
cansados já vinham,
e em larga conversa
a noite entretinham.
Um conta que há pouco
a seta aguçada
em uma beleza
deixara empregada.
Diz outro que as flechas
cravara no peito
de um grande, que teve
o mundo sujeito.
Enquanto das forças
cada um presumia,
seus membros já lassos
o sono rendia.
Dormindo tranquilos,
a noite passaram,
e inda antes da aurora
com ânsia acordaram.
— É tempo que o leito
deixemos, ó Morte -
Amor, já erguido,
falou desta sorte.
— É tempo, - em reposta
a Morte repete -
que à nossa fadiga
dormir não compete.
As armas colhamos,
voltemos ao giro:
cada um a seu gosto
empregue o seu tiro.
em sono turbados,
ao sítio em que os ferros
estão pendurados.
Amor para as setas
da Morte se enclina; *
de Amor logo a Morte
co'as flechas atina.
Oh! golpes tiramos!
oh! mãos homicidas!
são tiros da Morte
de Amor as feridas.
De um sonho, que pinto,
Marília, conhece
se amor, ou se morte
esta alma padece.
terça-feira, 4 de março de 2025
Delvanir LOPES - Meio
quando a sombra se esconde sob os pés,
sou só luz.
Talvez o outro não exista
para alterar os pensamentos.
quando nada veem os olhos abertos,
penso para saber que existo.
Talvez a manhã chegue
para iluminar o esquecimento.
o tempo é sagrado,
não há ecos, não há vozes.
O silêncio, que parece eterno,
se desfaz num respiro.
quando as vozes viajam no mistério,
sinto o sangue viajando no corpo,
ouço os respiros chegando no ar.
Toco o que não vejo
deslizando os dedos lentamente;
dou o passo sempre inseguro
na direção que não sei onde conduz.
sou o vigor do corpo que o sol começa a derreter.
Mas tanta luz cega os olhos despreparados,
queima as retinas e engana as ideias ...
escurece o claro.
No meu corpo o tempo caminha,
as sombras escondidas ganham vida,
vão devorando, lentamente, a luz,
apagando meu corpo
até que mergulhe na escuridão
e desapareça.
LOPES, Delvanir. Meio. In: Jardim de Concisos . Florianópolis/SC: Bookess, 2015, p. 43-44.
segunda-feira, 3 de março de 2025
Luis Vaz de CAMÕES - soneto 041
A sua presunçosa tirania
Destas minhas entranhas, onde cria
Amor um mal que falta quando cresce;
Se nela o Céu mostrou (como parece)
Quanto mostrar ao mundo pretendia,
Porque de minha vida se injuria?
Porque de minha morte se enobrece?
Ora, enfim, sublimai vossa vitória,
Senhora, com vencer-me e cativar-me;
Fazei dela no mundo larga história.
Pois, por mais que vos veja atormentar-me,
Já me fico logrando desta glória
De ver que tendes tanta de matar-me.
Sonetos, de Luís de Camões, p. 8.
Texto-base: CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas de Luís Camões. Direção Literária Dr. Álvaro Júlio da Costa Pimpão.
Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br> A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
segunda-feira, 14 de outubro de 2024
Carlos DRUMMOND de Andrade - Igual-desigual
ANDRADE, Carlos Drummond de. Igual - Desigual. In: __________. Literatura comentada. 2. ed. São Paulo, SP: Nova Cultural, 1988. p. 144-145.
segunda-feira, 4 de março de 2024
SONETO DE AMOR - José Régio
Não me peças palavras,
nem baladas, Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.
Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.
E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.
Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!
José RÉGIO. José. Soneto de amor. In: ANDRADE, Eugénio de. Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa.
John KEATS - Endymion
(excerpt)
O que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento.
Assim, cabe tecer cada momento
Nessa grinalda que nos entretece
À terra, apesar da pouca messe
De nobres naturezas, das agruras,
Das nossas tristes aflições escuras,
Das duras dores. Sim, ainda que rara,
Alguma forma de beleza aclara
As névoas da alma. O sol e a lua estão
Luzindo e há sempre uma árvore onde vão
Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos
De uvas num mundo verde; riachos
Que refrescam, e o bálsamo da aragem
Que ameniza o calor; musgo, folhagem,
Campos, aromas, flores, grãos, sementes,
E a grandeza do fim que aos imponentes
Mortos pensamos recobrir de glória,
E os contos encantados na memória:
Fonte sem fim dessa imortal bebida
Que vem do céus e alenta a nossa vida.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024
Elizabeth Barrett Browning - HOW DO I LOVE THEE?
How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of being and ideal grace.
I love thee to the level of every day’s
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for right.
I love thee purely, as they turn from praise.
I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood’s faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints. I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life; and, if God choose,
I shall but love thee better after death.
This poem is in the public domain.










